60 anos de diálogo universitário:
uma agenda de Estado para a Educação Superior brasileira
Ao completar 60 anos em 2026, o Conselho de Reitoras e Reitores das Universidades Brasileiras – CRUB, dirige-se a todas as candidaturas à Presidência da República com o propósito de apresentar prioridades para que a Educação Superior, a Ciência, a Tecnologia e a Inovação sejam potencializadas como políticas de Estado, conferindo-lhes continuidade, planejamento, avaliação e responsabilidade pública no período 2027–2030.
O CRUB atravessou diferentes ciclos e debates da vida nacional como a Reforma Universitária, a consolidação da Pós-Graduação e da Pesquisa, os diálogos sobre Autonomia Universitária, o processo da redemocratização, a Constituição de 1988, a expansão e interiorização da Educação Superior e, mais recentemente, a transformação digital, a Inteligência Artificial e a crescente centralidade do conhecimento para a soberania e a competitividade das nações. Sua história, porém, não se resume à permanência institucional, ela se traduz em uma vocação: aproximar Reitoras e Reitores de instituições distintas para pensar o sistema educacional como um todo.
Essa é a singularidade que orienta esta carta. O CRUB congrega Dirigentes de instituições públicas federais, estaduais e municipais, comunitárias e particulares. Busca construir convergências entre realidades diferentes. Em um sistema amplo e heterogêneo, a pluralidade institucional não deve ser tratada como obstáculo, mas como capacidade nacional a ser coordenada em favor de objetivos públicos comuns.
I – Educação Superior como infraestrutura estratégica do Brasil
O Brasil registrou, em 2024, 10,2 milhões de matrículas de graduação em 2.561 Instituições de Educação Superior. São Universidades, Centros Universitários, Faculdades, Institutos Federais e Cefets distribuídos por diferentes regiões e submetidos a distintas formas de organização e financiamento. A dimensão desse sistema é uma conquista. O desafio agora é transformar escala em qualidade, permanência, conclusão, produção de conhecimento e impacto social.
A Educação Superior integra a infraestrutura intelectual, científica, tecnológica, cultural e social do país. Nela se formam profissionais para as Escolas Públicas e Privadas, o SUS, a indústria, o agronegócio, a administração pública, a economia digital e os serviços; nela se produz grande parte da pesquisa brasileira; dela partem soluções para os territórios, para a inovação empresarial, para a cultura, para a sustentabilidade e para a formulação de políticas públicas.
O ciclo 2027–2030 começa em um momento particularmente exigente. O novo Plano Nacional de Educação – PNE, aprovado em 2026, estabelece objetivos para a próxima década, enquanto mudanças demográficas, tecnológicas, climáticas e produtivas alteram rapidamente as demandas sobre as instituições. O país precisará formar melhor, pesquisar mais, inovar com maior velocidade e reduzir desigualdades territoriais sem renunciar a qualidade, autonomia, segurança jurídica e responsabilidade fiscal.
II – Uma agenda própria do CRUB para 2027–2030
A experiência acumulada pelo CRUB sugere que a próxima etapa da Educação Superior brasileira depende menos de respostas isoladas e mais de coordenação. Por isso, o Conselho propõe uma agenda concentrada em sete compromissos nacionais, capazes de acolher a diversidade institucional e, ao mesmo tempo, orientar uma estratégia comum.
- Planejamento de Estado para um sistema plural e integrado
Fortalecer a Educação Superior como sistema nacional, sem uniformizar instituições que possuem missões, naturezas jurídicas e responsabilidades distintas, singulares. Expansão, Regulação, Financiamento, Ciência, Formação Profissional e Desenvolvimento Regional devem ser discutidos de forma articulada, com base em evidências e em objetivos de longo prazo.
- estabelecer, no início do próximo governo, uma agenda de implementação das Metas de Educação Superior do PNE 2026–2036, com indicadores públicos de Acesso, Permanência, Conclusão, Qualidade e redução das desigualdades;
- criar instância permanente de diálogo entre MEC, MCTI, CAPES, CNPq, Finep, Sistemas Estaduais, Municipais e do Distrito Federal, Entidades Representativas e Instituições de diferentes segmentos;
- considerar demanda social, vocações regionais e capacidade instalada no planejamento da expansão de cursos, vagas e infraestrutura.
- Autonomia, Qualidade e Segurança Institucional
A Autonomia Universitária prevista no artigo 207 da Constituição é condição para a liberdade acadêmica, a produção de conhecimento e para a capacidade de inovação institucional. Ao mesmo tempo, Autonomia convive com Avaliação, Integridade, Transparência e Responsabilidade perante a sociedade. O desafio Regulatório é combinar rigor com previsibilidade e respeito à diversidade do sistema.
- preservar a autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial das universidades, nos termos constitucionais;
- reduzir mudanças regulatórias abruptas e ampliar consulta, transição e avaliação de impacto antes de alterações estruturais;
- aperfeiçoar os processos de avaliação com ênfase em aprendizagem, trajetória estudantil, qualificação docente, pesquisa, extensão, inovação e relevância social, sem presumir que uma única forma de oferta seja adequada a todas as realidades.
- Acesso que se converta em Permanência e Conclusão
A democratização da Educação Superior não se completa com o acesso. O estudante precisa ter condições de permanecer, aprender e concluir sua formação. Políticas de Bolsas, Financiamento, Assistência Estudantil, e Acessibilidade devem ser concebidas de forma complementar, considerando estudantes de instituições públicas, comunitárias e particulares e respeitando a natureza de cada segmento.
- integrar políticas de acesso, assistência e financiamento estudantil a metas de permanência e conclusão;
- aperfeiçoar o FIES, PROUNI e demais políticas de apoio, com sustentabilidade financeira, critérios transparentes e avaliação periódica de resultados;
- fortalecer políticas de acessibilidade, inclusão digital, alimentação, transporte, moradia, saúde e apoio pedagógico para estudantes em situação de vulnerabilidade.
- Financiamento sustentável e responsabilidades compartilhadas
Uma política educacional duradoura requer financiamento compatível com seus objetivos. A pluralidade brasileira exige instrumentos distintos: orçamento público previsível para instituições estatais; mecanismos adequados de cooperação com instituições comunitárias; programas de bolsas e financiamento para estudantes; fomento competitivo e transparente à pesquisa, à extensão e à inovação em instituições habilitadas.
- assegurar previsibilidade plurianual para políticas públicas de Educação Superior e CT&I, reduzindo descontinuidades que comprometem projetos acadêmicos e científicos;
- aperfeiçoar instrumentos de parceria e fomento de acordo com a natureza jurídica e a missão pública de cada instituição, com metas, prestação de contas e avaliação de resultados;
- vincular novos programas de financiamento a indicadores de qualidade, equidade, eficiência e impacto social.
- Ciência, Pós-Graduação, Inovação e Inteligência Artificial
A soberania contemporânea depende da capacidade de produzir conhecimento, formar pesquisadores, dominar tecnologias estratégicas e transformá-las em soluções. O Brasil construiu, ao longo de décadas, uma base científica relevante. Preservá-la e ampliá-la exige continuidade, infraestrutura, pessoas qualificadas e maior conexão entre universidade, governo, empresas e sociedade.
- potencializar o financiamento de pesquisa, pós-graduação e infraestrutura científica, com prioridade também para regiões e instituições com menor capacidade instalada;
- articular universidades, centros de pesquisa, empresas e governos em missões nacionais de saúde, biodiversidade, transição energética, segurança alimentar, indústria, clima, defesa e transformação digital;
- formular diretrizes nacionais para o uso responsável da inteligência artificial na Educação Superior, incluindo formação docente, integridade acadêmica, proteção de dados, segurança e desenvolvimento de capacidades tecnológicas nacionais.
- Formação de Professores e compromisso com a Educação Básica
A qualidade da Educação Básica depende, em grande medida, da qualidade da Formação Inicial e Continuada de Professores. Esse vínculo precisa ser tratado como política permanente, e não como responsabilidade isolada das Licenciaturas ou das Redes de Ensino.
- fortalecer Licenciaturas e Programas de Iniciação à Docência, Residências, Estágio e Formação Continuada, com atenção especial às áreas e regiões com escassez de professores;
- aproximar instituições formadoras, escolas e redes de ensino para que a formação docente incorpore prática, pesquisa educacional e acompanhamento de resultados;
- valorizar a docência como carreira estratégica para o desenvolvimento do país.
- Territórios, Sustentabilidade e Cooperação Internacional
As Instituições de Educação Superior são âncoras de desenvolvimento nos territórios em que atuam. Hospitais Universitários, Clínicas-Escola, Laboratórios, Museus, Núcleos de Inovação, Empresas Juniores, Incubadoras, Programas de Extensão e Redes de Pesquisa conectam conhecimento às necessidades de Municípios, Estados/DF, empresas e comunidades. Ao mesmo tempo, a produção científica brasileira precisa circular internacionalmente e participar de redes capazes de enfrentar desafios globais.
- integrar as IES às políticas de desenvolvimento regional, saúde, cultura, inovação, adaptação climática e transição energética;
- ampliar cooperação acadêmica e científica com América Latina, países de língua portuguesa, redes Sul-Sul e centros internacionais de excelência;
- estimular mobilidade, cotutelas, dupla titulação, atração de pesquisadores e participação brasileira em grandes redes e infraestruturas científicas.
III – Um compromisso nacional para além de 2030
Os 60 anos do CRUB implicam uma reflexão de longo prazo. Muitos dos desafios aqui descritos não cabem integralmente em um mandato presidencial. Formação de Pesquisadores, Expansão Qualificada, redução de desigualdades, consolidação de infraestrutura científica e transformação digital exigem continuidade entre governos.
Por essa razão, o Conselho propõe que o próximo ciclo de governo abra um processo de construção de um compromisso nacional de longo prazo para a Educação Superior, a Ciência, a Tecnologia e a Inovação. Mais importante que criar uma estrutura burocrática é estabelecer uma agenda compartilhada, com objetivos prioritários mensuráveis, responsabilidades definidas, acompanhamento público e participação de União, Estados/DF, Municípios, Instituições de Educação Superior, comunidade científica, setor produtivo e sociedade civil.
O CRUB pode contribuir para esse processo justamente por sua natureza plural. A experiência de reunir diferentes segmentos em torno de temas comuns constitui um ativo institucional em um momento no qual o país precisa combinar diversidade, cooperação e capacidade de decisão.
IV – Considerações finais
O CRUB compreende que a Educação Superior, Ciência, Tecnologia e Inovação são políticas de Estado e patrimônio estratégico da sociedade brasileira. O país será capaz de enfrentar seus desafios quando mobilizar, de forma cooperativa, a diversidade de suas instituições e transformar conhecimento em formação humana, inovação, desenvolvimento sustentável e soberania.
Aos 60 anos, o Conselho de Reitoras e Reitores das Universidades Brasileiras coloca-se à disposição de todas as candidaturas à Presidência da República para aprofundar tecnicamente esta agenda e contribuir para que o ciclo 2027–2030, seja marcado por diálogo institucional, planejamento de longo prazo e compromisso efetivo com a Educação Superior brasileira.
Auguramos que Vossa Excelência e respeitável Vice, assim como a Equipe de Coordenação de Campanha, possam ler, analisar e envidar esforços, em sendo eleitos, para a consecução das proposições acima elencadas e que julgarem críveis de implementação. Contem com o CRUB e nossa rede de Reitoras e Reitores no apoio e valorização da política pública de educação brasileira, destacadamente, a educação superior.
Brasília, setembro de 2026.
Reitora Vera Lúcia da Rocha Maquêa
Presidente do Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras – CRUB
Reitora da Universidade do Estado de Mato Grosso – UNEMAT