Grupo de pesquisadores da UFRJ é referência nacional em análises forenses

NAF atua na identificação de novas drogas, substâncias psicoativas e petróleo proveniente de crimes ambientais

O que vem à sua mente quando você pensa em ciência forense? No imaginário popular, essa área é rapidamente associada a cenas criminais e peritos, como nos seriados de TV em que um crime supercomplexo é solucionado a partir do exame de um único fio de cabelo, como um passe de mágica. No entanto, as análises forenses são muito mais que isso. Estudos forenses estão associados a métodos que visam comprovar, detalhadamente, as evidências criminais pertinentes aos fatos ocorridos ou traçar estratégias de combate à criminalidade, em diversas áreas. Seu foco principal são as análises, investigações e pesquisas em matrizes forenses, utilizando técnicas analíticas de alto desempenho.

A UFRJ conta com um grupo de pesquisadores na área. O NAF (Núcleo de Análises Forenses) combina excelência acadêmica e infraestrutura com aplicação prática. Vinculado ao Laboratório de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico (Ladetec), do Instituto de Química da UFRJ, o NAF fica localizado no campus Cidade Universitária. Foi idealizado em 2001, mas começou a funcionar somente em 2018. Desde então, o NAF vem desempenhando um papel fundamental no desenvolvimento de métodos de análise. O Núcleo realiza a identificação, caracterização química e a interpretação dos dados obtidos por meio de técnicas de análise de alta precisão realizadas em equipamentos de ponta. Referência na formação e capacitação de novos pesquisadores, é coordenado por Gabriela Vanini, doutora em Química pela UFRJ e professora do Departamento de Química Analítica da Universidade. Conta com pesquisadores de iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado de diversas áreas, como química, engenharia, biomedicina e farmácia.

O NAF atua em diferentes ramos da área forense, que vão desde a identificação de substâncias psicoativas presentes em drogas de abuso – substâncias com ação no sistema nervoso central com propósito não medicinal –   e remédios controlados; análises em matrizes como sangue, cabelos e unhas; ao estudo de amostras de petróleo derramado no meio ambiente. Oferece ainda suporte técnico e científico a instituições como a Secretaria Estadual de Polícia Civil do Rio de Janeiro (Sepol), o Instituto Médico Legal (IML), a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

Os resultados gerados pelos trabalhos desenvolvidos pelo NAF não geram laudos, tampouco incriminam indivíduos ou empresas. Sua atuação produz informações químicas através de pesquisas. “Se o resultado que vamos gerar vai vir a incriminar alguém, não cabe a gente chegar a esse viés. Somos professores, alunos e pesquisadores e geramos informações”, explica Gabriela.

NAF, segurança pública e saúde

As parcerias firmadas entre o NAF e as instituições externas se dão no sentido de cumprir o papel social da universidade pública, o de se relacionar com a sociedade, oferecendo os conhecimentos científicos desenvolvidos em seu interior. No acordo de colaboração com a Sepol, o NAF realiza o mapeamento e a identificação de substâncias psicoativas em amostras de drogas de abuso em diferentes matrizes, como selos, cristais, cápsulas, materiais vegetais e pós. “A todo momento, essas substâncias são modificadas. Quando conseguimos mapear uma substância e mudam alguma coisa na estrutura química dela, ela vira outra”, afirma Gabriela Vanini. A professora explica que além de drogas como maconha e cocaína, já conhecidas quimicamente, o mercado ilícito sintetiza novas drogas com substâncias psicoativas em proporções químicas diversas. Essas substâncias precisam ser identificadas e catalogadas oficialmente para que a polícia consiga realizar os processos criminais legais.

Amostras de drogas de abuso apreendidas pela polícia em diferentes matrizes, como selos, cristais, cápsulas, materiais vegetais e pós | Foto: Aní Coutinho (SGCOM/UFRJ)

Em parceria com a Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro e a Fiocruz, o NAF realizou análises forenses de inalantes com estruturas químicas diferentes das já estudadas por pesquisadores. O caso chamou a atenção das autoridades devido ao grande número de óbitos pelo consumo desse inalante. Ananda da Silva Antonio, pós-doutora em Química pela UFRJ e pesquisadora do NAF, conta que encontrou 166 substâncias químicas tóxicas em 16 amostras da droga de abuso. Pela droga ser barata, foram encontradas substâncias de produtos de limpeza e cola de sapateiro na composição química do inalante. Ananda explica que essa composição conta com solventes ainda mais perigosos: “Durante a análise, quando injetamos uma das amostras do inalante em um dos equipamentos, a parte metálica do instrumento foi degradada, oxidou”.

A relação com o Instituto Médico Legal (IML) se dá por meio  de um acordo de colaboração técnica entre o Departamento de Polícia Técnico-Científica (DGPTC/Sepol/Pcerj) e o Instituto de Química da UFRJ. A parceria inclui amostras biológicas, como sangue, unhas e cabelo, no material vindo de investigações da Sepol a serem analisadas pelo laboratório. As parcerias externas, além de oferecerem o conhecimento desenvolvido pelo NAF, também geram inovações em pesquisas. Foi a partir do acordo com o IML que os pesquisadores do Núcleo desenvolveram um método inovador de microextração de sangue em cadáveres para a investigação de benzodiazepínicos – medicamentos controlados usados para tratar ansiedade, insônia e convulsões. A pesquisa, coordenada por Cecília de Andrade Bhering, pós-doutoranda em Química pela UFRJ e pesquisadora do NAF, traz soluções mais econômicas e seguras para os peritos e para o meio ambiente. O método de microextração desenvolvido por Cecília utiliza 500 microlitros de sangue, volume cem vezes menor que o anterior, e 2,5 ml de solvente, em vez de 100 ml. O método foi adaptado pelo IML e já está sendo utilizado.

Foto: Aní Coutinho (SGCOM/UFRJ)

Um dos casos de maior destaque em que o Núcleo esteve envolvido foi em uma suspeita de envenenamento por chumbinho, praticado pela madrasta contra seus dois enteados, em 2022. A sociedade do Rio de Janeiro se chocou e se sensibilizou com o caso, que teve grande repercussão na mídia. Ananda conta que o caso foi um grande desafio: “As amostras recebidas pelo grupo foram fluidos de lavagem estomacal de um indivíduo levado a emergência e unhas e cabelos de um corpo exumado. Na época, os equipamentos que a polícia tinha não conseguiam detectar a concentração do pesticida presente no líquido estomacal, pois a substância já estava bastante diluída devido ao soro das lavagens realizadas na emergência médica”, afirma a pesquisadora. O grupo realizou o trabalho em apenas 24 horas a pedido da polícia, que precisava do laudo rapidamente para que o prazo do processo judicial fosse cumprido.

O trabalho resultou na publicação de um artigo científico na revista ScienceDirect 

NAF e meio ambiente

Já a  parceria do NAF com o Ibama tem o objetivo de consolidar o Núcleo como o principal centro de excelência em análises de amostras de petróleo derramado no meio ambiente para que haja a padronização dos métodos de análise. O projeto está criando um banco de óleos intitulado “Oleoteca de referência para vazamento de petróleo e derivados com análises avançadas de biomarcadores”.

Amostra de petróleo derramado na areia utilizada na pesquisa coordenada por Flávia Rodrigues Alvares | Foto: Aní Coutinho (SGCOM/UFRJ)

A oleoteca é composta por informações químicas presentes em amostras de petróleos brasileiros explorados em plataformas fora da costa já analisadas pelo NAF. O foco da iniciativa se dá no estudo de biomarcadores – substâncias que contém a “impressão digital” do petróleo. Os biomarcadores são substâncias que se mantêm preservadas no petróleo mesmo após o contato da amostra derramada com diferentes agentes externos, como chuva, sol e areia no meio ambiente. Através da identificação dessas substâncias preservadas é possível realizar uma correlação entre os óleos produzidos nas plataformas e os encontrados derramados no meio ambiente. O estudo e a identificação da caracterização química do petróleo possibilita reconhecer a sua origem. Desse modo, os possíveis responsáveis pelos derramamentos podem ser identificados, auxiliando o Ibama na fiscalização e na redução de incidentes e impactos ambientais.

O NAF é inovação também em Inteligência Artificial. O Núcleo desenvolveu a Tartá, IA que funciona como base de dados para uso interno, otimizando, expandindo e inovando tecnologicamente. O volume de amostras de petróleo derramado recebidas e de dados gerados a partir delas é grande e a Tartá promete constante aprendizado, buscando desenvolver soluções inovadoras e eficazes no combate a esse tipo de desastre ambiental. Através do armazenamento das informações já obtidas pelos estudos realizados pelo NAF, a Tartá promove a otimização do tempo dos pesquisadores em novas análises. Ao receberem uma nova amostra de petróleo, os cientistas conseguem identificar se as características presentes nessa amostra já foram analisadas pelo grupo anteriormente, agilizando o processo de análise.

Unindo rigor científico, formação e inovação, o NAF garante seu espaço de referência nacional em análises forenses. Desde 2018, o Núcleo vem conquistando prêmios em grandes eventos da Química, como no XVI Congresso Latino-americano de Geoquímica Orgânicacom o trabalho desenvolvido sobre análises de petróleos brasileiros, e no XVIII Encontro Regional da SBQ-Rio, com a pesquisa sobre drogas de abuso inalantes. Além de outras premiações, o Núcleo recebeu mais duas menções honrosas na última Semana de Integração Acadêmica da UFRJ – Siac 2025 pelos trabalhos realizados.

 

Por Vanessa Almeida e Júlia Araújo – UFRJ