Uma tese realizada na Universidade Federal de Santa Catarina conquistou o terceiro lugar na categoria no Concurso CAPES/Ministério da Defesa de dissertações e teses sobre Defesa e Soberania. Paola Barros Delben defendeu no Programa de Pós-Graduação em Psicologia um trabalho pioneiro sobre um modelo de gerenciamento de riscos em contextos remotos, como é o caso de ambientes extremos como a Antártica. O estudo foi defendido em 2023, mas a pesquisadora continua sua trajetória na universidade, agora com pós-doutorado no Programa de Pós-Graduação em Direito.
Ela desenvolveu, com a orientação dos professores Roberto Moraes Cruz e Pedro Marques Quinteiro, um programa padronizado e sistematizado, pautado em machine learning, para monitoramento de saúde mental e comportamento seguro. A tese também trata da biossegurança e bioproteção em contextos de difícil acesso.
O trabalho foi considerado relevante por oferecer à Defesa um instrumento robusto para reduzir riscos, prevenir incidentes, otimizar a resposta aos eventos e a seleção e preparação de pessoal. “Ao integrar protocolos, tecnologias e indicadores validados, a proposta fortalece a gestão do fator humano em operações críticas, diminuindo custos operacionais e aumentando a segurança e a eficiência das missões na Antártica, também aplicáveis à operações especiais, crises sanitárias, emergências e desastres, com maior autonomia para o país na gestão de riscos”, sintetiza.
O estudo de Paola, intitulado Programa de gerenciamento de indicadores de saúde mental e comportamento seguro em contextos de difícil acesso, é considerado pioneiro. Ela começou a executá-lo em 2014, quando ainda estava na graduação. O objetivo era pensar na gestão de riscos em ambientes extremos e propor um programa de gerenciamento, de interesse internacional, que hoje tem o apoio da Agência Espacial Brasileira (AEB).
“Desde o início da minha graduação, antes mesmo de entrar na Psicologia da UFSC, queria trabalhar com astronautas, foi o que me motivou a estudar psicologia, pois é notório que um dos principais desafios é o treinamento comportamental, que atravessa aspectos cognitivos e emocionais”, conta.
O estudo em um ambiente extremo como é o polar pode ajudar a pensar em outros episódios, como as crises provocadas pelos extremos climáticos
A pesquisadora lembra que estes contextos de difícil acesso, desde os Polares, como a Antártica, até montanhas ou offshore e simulações ou ações espaciais, podem ser exemplo e modelo para ambientes de menor complexidade.
“Se o programa de gerenciamento funciona em ambientes remotos/ extremos – em que há a necessidade de autossuficiência mais evidente – deve servir para a aplicação em ambientes mais cotidianos, desde hospitais, segurança pública ou defesa civil – alcançando ainda as emergências e desastres, que se configuram como extremos em sua caracterização”, comenta.
Na tese, Paola cria uma solução tecnológica para gerenciar indicadores críticos de saúde mental e comportamento nestes locais onde o suporte externo é limitado ou inviável. Para chegar aos resultados, ela contou também com a experiência do trabalho de campo: foram quatro visitas ao programa Antártico Brasileiro, em Brasília, uma ao programa Polar Portugês, além de sete passagens pela Antártica.
Para ela, o principal legado do estudo premiado é, principalmente, a possibilidade de otimizar sistemas e processos de atenção à saúde e segurança das pessoas.
“No campo da biossegurança a conduta humana é um dos principais desafios para reduzir os riscos de contaminações – além da prevenção de acidentes, adoecimentos e crises, com muito mais acurácia e rastreio de origens ou respostas mais rápidas aos incidentes quando as demais barreiras falham ou quando os eventos são imprevisíveis”, conta.
A cientista lembra que, em tempos de mudanças climáticas, este conhecimento tende a ser ainda mais relevante. “Qualquer contexto, até mesmo urbano, é potencialmente de difícil acesso, quando consideramos enchentes, vendavais e outros fenômenos naturais que têm se intensificado ultimamente”, explica.
Atualmente, Paola lidera uma série de expedições em contextos naturais extremos para simulações espaciais em 2026 e também faz o acompanhamento de atletas em montanhas pelo mundo, como Everest, Aconcágua, Bolívia e também na Amazônia.
