Iniciativa do Instituto de Geriatria e Gerontologia une letramento digital, estímulo cognitivo e pesquisa para promover envelhecimento ativo e saudável
Sair de casa, aprender algo novo, criar vínculos e ganhar autonomia em um mundo cada vez mais conectado. Para muitas pessoas idosas, essas conquistas podem transformar a rotina e fortalecer a participação na sociedade. Foi com esse propósito que o Instituto de Geriatria e Gerontologia da PUCRS (IGG) inaugurou, nesta segunda-feira (1º), o Espaço de Inclusão Digital e Cidadania, dedicado ao letramento digital, ao estímulo cognitivo e à convivência comunitária.
A iniciativa atende moradores de comunidades da Capital, como Nossa Senhora de Fátima, São Judas Tadeu e região, oferecendo atividades que combinam inclusão digital e estimulação linguístico-cognitiva. Concebido em 2022, o projeto foi viabilizado com recursos do Fundo Municipal da Pessoa Idosa e apoio do Banco Itaú, além da parceria de diferentes instituições e organizações voltadas ao envelhecimento.
Durante a cerimônia de inauguração, o diretor científico do IGG, professor Régis Gemerasca Mestriner, destacou que o espaço nasce a partir de evidências científicas que relacionam o isolamento social e o baixo estímulo cognitivo ao aumento do risco de demência.
“Acreditamos que a combinação entre estímulo línguistico-cognitivo e inclusão digital produz resultados superiores aos de um estímulo cognitivo isolado. É nisso que acreditamos. E este projeto pode se tornar um grande embrião para a nossa sociedade”, afirmou.
Para a pró-reitora de Saúde da PUCRS, professora Andrea Bandeira, o espaço materializa o compromisso institucional da Universidade com a promoção da saúde e o impacto social. “Mais do que uma estrutura física, este espaço representa a construção de oportunidades, autonomia, participação social e cidadania”, afirmou.
Andrea também reforçou que o envelhecimento é um tema transversal para a Universidade, que busca integrar diferentes áreas do conhecimento para contribuir com políticas públicas e melhorar a qualidade de vida da população.
Um espaço que vai além da tecnologia
Mais do que ensinar o uso de ferramentas digitais, a proposta busca ampliar oportunidades de participação social, autonomia e qualidade de vida. Segundo Mestriner, a iniciativa tem um caráter preventivo: “Este projeto é diferente porque não espera a doença chegar. Ele vai ao encontro das pessoas antes dela, e isso faz toda a diferença quando falamos em prevenção”, ressaltou.
A presidente do Conselho Municipal da Pessoa Idosa (Comui), Angela Gubert, celebrou a concretização da iniciativa e desejou sua continuidade. Segundo ela, promover o envelhecimento saudável passa necessariamente pelo cuidado com a saúde cerebral e pela preservação das capacidades cognitivas, tornando projetos como este fundamentais para a sociedade.
“Tudo o que vi aqui hoje me deixou sinceramente maravilhada. Fiquei impressionada com a estrutura construída e com tudo o que foi mobilizado para tornar este projeto possível”, disse a presidente do Comui.

Os principais protagonistas do novo espaço, porém, são os próprios participantes. Aos 74 anos, Eronita dos Santos conta que encontrou no projeto uma oportunidade de ampliar horizontes e fortalecer sua autonomia. “A partir do momento em que cheguei aqui, descobri um outro mundo. Eu gostaria que mais pessoas tivessem acesso a iniciativas como essa, porque é maravilhoso e desperta a gente para um monte de coisas”, relatou.
Um projeto como esse, segundo ela, poderá abrir o mundo para muitas pessoas que têm dificuldade com o digital. “O que acontece é que, muitas vezes, a gente esquece das coisas. O neto vem, a filha vem, explicam uma vez, mas daqui a pouco a gente esquece. Muitas vezes eles não têm a paciência necessária para ensinar novamente. Aqui nós teremos um letramento digital que vai abrir caminhos”.
Participante de iniciativas da PUCRS há mais de duas décadas, Ana Maria Virote Kassick destaca o valor da convivência construída ao longo dos anos. “Depois dos 60 anos, esses espaços de convivência se tornam muito importantes. Muitos dos colegas que conheci lá no primeiro projeto, em 2003, estão aqui até hoje e acabamos formando uma verdadeira família”, contou.
Ana diz que percebe – tanto na sua rotina como na rotina das amigas – o impacto positivo de ações simples, como sair de casa. “Eu estava conversando com uma colega que ficou viúva recentemente e está reconstruindo a vida. Eu disse para ela que participar de atividades assim faz muito bem. Não elimina as dificuldades, mas ajuda. Mesmo para quem não passa por uma situação assim, sair das quatro paredes faz diferença.”
O marido, Verno Valério Kassick, que passou a participar mais ativamente após a aposentadoria, reforça que as atividades ajudam a criar novos vínculos e preencher espaços deixados pelas mudanças da vida.

“Durante muito tempo eu acompanhava esse grupo à distância, porque ainda trabalhava. Eu trazia a Ana para as atividades e via tudo acontecer, mas não conseguia participar. Eu admirava muito esse grupo e achava algo fantástico. Agora, ainda estou começando, então me considero um iniciante. Mas essa participação já está preenchendo um espaço importante na nossa vida”, declara.
Além das atividades oferecidas à comunidade, o projeto também possui uma frente de pesquisa que buscará avaliar os impactos das ações na saúde cerebral dos participantes. A expectativa é que os resultados produzam evidências capazes de contribuir para futuras políticas públicas voltadas ao envelhecimento ativo.
“Uma universidade comunitária existe para estar justamente onde a comunidade precisa”, resumiu Mestriner.
Em um cenário em que a inclusão digital se torna cada vez mais necessária para o exercício da cidadania, o novo espaço nasce como um convite para aprender, conviver e construir novas possibilidades ao longo da vida. Eronita, que veio de Viamão para o evento, contou que, além do aprendizado, conquistou amizades e fez novos vínculos — sem contar confiança e autonomia que vem desenvolvendo.“Desde que comecei a participar, a principal mudança foi que ganhei coragem para sair de casa. Hoje, por exemplo, cheguei atrasada. Antigamente, eu pensaria ‘não vou mais’. Agora não. Mesmo atrasada, eu venho”,contou animada.